Castro Alves - Cansaço

O NÁUFRAGO nadou por longas horas...
Na praia dorme frio num desmaio.
A força após a luta abandonou-o,
Do sol queimou-lhe a face ardente raio.

Pois eu sou como o nauta... Após a luta
Meu amor dorme lânguido no peito.
Cansado... talvez morto, dorme e dorme
Da indiferença no gelado leito.

Sobre as asas velozes a andorinha
Maneira se lançou nos puros ares...
Veio após o tufão... lutou debalde,
Mas em breve boiou por sobre os mares.

Eu sou como a andorinha... Ergui meu vôo
Sobre as asas gentis da fantasia.
A descrença nublou-me o céu da vida...
E a crença estrebuchou numa agonia.

Como as flores de estufa que emurchecem
Lembrando o céu azul do seu país,
Minha alma vai morrendo, suspirando
Por seus perdidos sonhos tão gentis.

E que durma ... E que durma ... ó virgem santa,
Que criou sempre pura a fantasia,
Só a ti é que eu quero que te sentes
Ao meu lado na última agonia

Álvares de Azevedo -Oh! Páginas de vida que eu amava

Oh! Páginas da vida que eu amava,
Rompei-vos! nunca mais! tão desgraçado!
... Ardei, lembranças doces do passado!
Quero rir-me de tudo que eu amava!

E que doudo que eu fui! como eu pensava
Em mãe, amor de irmã! em sossegado
Adormecer na vida acalentado
Pelos lábios que eu tímido beijava!

Embora - é meu destino.
Em treva densa
Dentro do peito a existência finda
Pressinto a morte na fatal doença!

A mim a solidão da noite infinda!
Possa dormir o trovador sem crença
Perdoa minha mãe - eu te amo ainda!

Carlos Drummond de Andrade - Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para o Estados Unidos, Teresa para o
convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto
Fernandes
que não tinha entrado na história.

Fernando Pessoa - A Flor que És

Ricardo Reis

A flor que és, não a que dás, eu quero. 

Porque me negas o que te não peço. 
Tempo há para negares 
Depois de teres dado. 
Flor, sê-me flor!
Se te colher avaro 
A mão da infausta esfinge, tu perere 
Sombra errarás absurda, 
Buscando o que não deste.

Alice Ruiz - Haicai

primavera
até a cadeira
olha pela janela

luzes acesas
vozes amigas
chove melhor

Leila Míccolis - Fui eu

Reflexão
Fui eu quem lhe deu, feroz,
uma paixão tão voraz,
que fora dela, rapaz,
nenhum espaço sobrou.

Fui eu quem lhe deu a corda
com que você se enforcou?

Camilo Pessanha - Vida

Choveu! E logo da terra humosa 
Irrompe o campo das liliáceas.
Foi bem fecunda, a estação pluviosa! 
Que vigor no campo das liliáceas! 

Calquem. Recal-quem, não o afogam. 
Deixem. Não calquem. Que tudo invadam. 
Não as extinguem. Porque as degradam? 
Para que as calcam? Não as afogam. 

Olhem o fogo que anda na serra. 
É a queimada... Que lumaréu! 
Podem calcá-lo, deitar-lhe terra, 
Que não apagam o lumaréu. Deixem! 

Não calquem! Deixem arder. 
Se aqui o pisam, reben-ta além.
 - E se arde tudo? - Isso que tem? 
Deitam-lhe fogo, é para arder..

Antero de Quental - Noturno

spírito que passas, quando o vento 
Adormece no mar e surge a Lua, 
Filho esquivo da noite que flutua, 
Tu só entendes bem o meu tormento... 

Como um canto longínquo - triste e lento- 
Que voga e sutilmente se insinua, 
Sobre o meu coração que tumultua, 
Tu vestes pouco a pouco o esquecimento...
 
A ti confio o sonho em que me leva 
Um instinto de luz, rompendo a treva, 
Buscando. entre visões, o eterno Bem. 

E tu entendes o meu mal sem nome, 
A febre de Ideal, que me consome, 
Tu só, Gênio da Noite, e mais ninguém

Mário de Sá-Carneiro - Distante Melodia

Num sonho de Íris morto a oiro e brasa,
Vem-me lembranças doutro Tempo azul 
Que me oscilava entre véus de tule -
 Um tempo esguio e leve, um tempo-Asa.

 Então os meus sentidos eram cores 
 Nasciam num jardim as minhas ânsias, 
Havia na minha alma Outras distâncias - 
 Distâncias que o segui-las era flores... 

Caía Oiro se pensava Estrelas,
 O luar batia sobre o meu alhear-me... 
- Noites-lagoas, como éreis belas 
 Sob terraços-lis de recordar-me!...

 Idade acorde de Inter-sonho e Lua, 
 Onde as horas corriam sempre jade, 
 Onde a neblina era uma saudade, 
 E a luz - anseios de Princesa nua... 

 Balaústres de som, arcos de Amar, 
 Pontes de brilho, ogivas de perfume... 
 Domínio inexprimível de Ópio e lume 
 Que nunca mais, em cor, hei-de habitar... 

 Tapetes de outras Pérsias mais Oriente...
 Cortinados de Chinas mais marfim... 
 Áureos Templos de ritos de cetim... 
 Fontes correndo sombra, mansamente... 

 Zimbórios-panteões de nostalgias, 
 Catedrais de ser-Eu por sobre o mar...
 Escadas de honra, escadas só, ao ar... 
 Novas Bizâncios-Alma, outras Turquias... 

 Lembranças fluidas... 
Cinza de brocado... 
 Irrealidade anil que em mim ondeia... 
 - Ao meu redor eu sou Rei exilado, 
 Vagabundo dum sonho de sereia...

Bocage - O céu, de opacas sombras abafado

O céu, de opacas sombras abafado,
Tornando mais medonha a noite fea,
Mugindo sobre as rochas, que saltea,
O mar, em crespos montes levantado; 

Desfeito em furacões o vento irado; 
Pelos ares zunindo a solta area; 
O pássaro nocturno, que vozea 
No agoireiro cipreste além pousado;

 Formam quadro terrível, mas aceito,
 Mas grato aos olhos meus, grato à fereza
 Do ciúme e saudade, a que ando afeito. 

Quer no horror igualar-me a Natureza; 
Porém cansa-se em vão, que no meu peito 
Há mais escuridade, há mais tristeza