Deixai-os vir a mim, os que lidaram;
Deixai-os vir a mim, os que padecem;
E os que cheios de mágoa e tédio encaram
As próprias obras vãs, de que escarnecem...
Em mim, os Sofrimentos que não saram,
Paixão, Dúvida e Mal, se desvanecem.
As torrentes da Dor, que nunca param,
Como num mar, em mim desaparecem. -
Assim a Morte diz. Verbo velado,
Silencioso intérprete sagrado
Das cousas invisíveis, muda e fria,
É, na sua mudez, mais retumbante
Que o clamoroso mar; mais rutilante,
Na sua noite, do que a luz do dia.
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Antero de Quental - Pepa
Dá-me pois olhos e lábios;
Da-me os seios, da-me os bracos;
Da-me a garganta de lírio;
Dá-me beijos, dá-me abracos!
Empresta-me a voz ingênua
Para eu com ela orar
A oração de meus cantos
De teu seio no altar!
Empresta-me os pés, gazela,
Para que eu possa correr
O vasto mundo que se abre
Num teu rir, num teu dizer!
Presta-me a tua inocência,
Para eu ir ao ceu voar...
Mas acende cá teus olhos
Para que eu possa voltar!
Por Deus to peço, senhora,
Que tu mo queiras fazer;
Da-me os cílios de teus olhos
Para eu adormecer;
Por que, enquanto os tens abertos,
Sempre para aqui a olhar,
Não posso fechar os meus,
E sempre estou a acordar!
Pela Santa-Virgem peço
Que tu me queiras sorrir;
Por que eu tenho um lírio d'ouro
Há três anos por abrir,
E, se Ihe deres um riso,
Há-de cuidar que e a aurora...
E talvez que o lírio se abra,
Talvez que se abra nessa hora!
Por Alá, minha palmeira!
Quando ao sol me for deitar,
Faze sombra do meu lado...
Por que eu quero-te abracar!
D'amor te requeiro, ondina,
Quando te fores a erguer,
Ver-te no espelho das fontes...
Por que eu quero-te beber!
Da-me os seios, da-me os bracos;
Da-me a garganta de lírio;
Dá-me beijos, dá-me abracos!
Empresta-me a voz ingênua
Para eu com ela orar
A oração de meus cantos
De teu seio no altar!
Empresta-me os pés, gazela,
Para que eu possa correr
O vasto mundo que se abre
Num teu rir, num teu dizer!
Presta-me a tua inocência,
Para eu ir ao ceu voar...
Mas acende cá teus olhos
Para que eu possa voltar!
Por Deus to peço, senhora,
Que tu mo queiras fazer;
Da-me os cílios de teus olhos
Para eu adormecer;
Por que, enquanto os tens abertos,
Sempre para aqui a olhar,
Não posso fechar os meus,
E sempre estou a acordar!
Pela Santa-Virgem peço
Que tu me queiras sorrir;
Por que eu tenho um lírio d'ouro
Há três anos por abrir,
E, se Ihe deres um riso,
Há-de cuidar que e a aurora...
E talvez que o lírio se abra,
Talvez que se abra nessa hora!
Por Alá, minha palmeira!
Quando ao sol me for deitar,
Faze sombra do meu lado...
Por que eu quero-te abracar!
D'amor te requeiro, ondina,
Quando te fores a erguer,
Ver-te no espelho das fontes...
Por que eu quero-te beber!
Antero de Quental - Noturno
spírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a Lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...
Como um canto longínquo - triste e lento-
Que voga e sutilmente se insinua,
Sobre o meu coração que tumultua,
Tu vestes pouco a pouco o esquecimento...
A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando. entre visões, o eterno Bem.
E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Gênio da Noite, e mais ninguém
Antero de Quental - Com os mortos
Os que amei, onde estão? Idos, dispersos,
arrastados no giro dos tufões,
Levados, como em sonho, entre visões,
Na fuga, no ruir dos universos…
E eu mesmo, com os pés também imersos
Na corrente e à mercê dos turbilhões,
Só vejo espuma lívida, em cachões,
E entre ela, aqui e ali, vultos submersos…
Mas se paro um momento, se consigo
Fechar os olhos, sinto-os a meu lado
De novo, esses que amei vivem comigo,
Vejo-os, ouço-os e ouvem-me também,
Juntos no antigo amor, no amor sagrado,
Na comunhão ideal do eterno Bem.
arrastados no giro dos tufões,
Levados, como em sonho, entre visões,
Na fuga, no ruir dos universos…
E eu mesmo, com os pés também imersos
Na corrente e à mercê dos turbilhões,
Só vejo espuma lívida, em cachões,
E entre ela, aqui e ali, vultos submersos…
Mas se paro um momento, se consigo
Fechar os olhos, sinto-os a meu lado
De novo, esses que amei vivem comigo,
Vejo-os, ouço-os e ouvem-me também,
Juntos no antigo amor, no amor sagrado,
Na comunhão ideal do eterno Bem.
Antero de Quental - Intimidade
Quando, sorrindo, vais passando, e toda
Essa gente te mira cobicosa,
Es bela - e se te nao comparo a rosa,
E que a rosa, bem ves, passou de moda...
Anda-me as vezes a cabeca a roda,
Atras de ti tambem, flor caprichosa!
Nem pode haver, na multidao ruidosa,
Coisa mais linda, mais absurda e doida.
Mas e na intimidade e no segredo,
Quando tu coras e sorris a medo,
Que me apraz ver-te e que te adoro, flor!
E nao te quero nunca tanto (ouve isto)
Como quando por ti, por mim, por Cristo, Juras
- mentindo - que me tens amor...
Antero de Quental - Ideal
Aquela, que eu adoro, não é feita
De lírios nem de rosas purpurinas,
Não tem as formas lânguidas, divinas
Da antiga Vênus de cintura estreita...
Não é a Circe, cuja mão suspeita
Compõe filtros mortas entre ruínas,
Nem a Amazona, que se agarra às crinas
Dum corcel e combate satisfeita...
A mim mesmo pergunto, e não atino
Com o nome que se dê a essa visão,
Que ora amostra ora esconde o meu destino...
E como uma miragem que entrevejo,
Ideal, que nasceu na solidão,
Nuvem, sonho impalpável do Desejo...
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